quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Um conto inacabado...


Aos 32 anos ele percebeu que definitivamente a vida não faz nenhum sentido. Ele nunca botara muita fé na vida, mas no fundo havia esperanças. E elas o sustentaram por muitos anos...

Até que um dia ele acordou sentindo-se estranho - sem sentir absolutamente nada, como se não houvesse sentimento dentro dele, como se suas esperanças tivessem ido embora, com tudo o mais que pudesse sentir.

Ele passou dois dias na cama sem saber o que aconteceu, não conseguia se lembrar direito dos dias anteriores e não tinha vontade de sair ou fazer qualquer outra coisa além de ficar jogado na cama. Até pensar era desgastante... E assim passou dois dias, estirado na cama olhando para os móveis em seu quarto. Eventualmente cochilava, mas dormia pouco.

No terceiro dia ele levantou, tomou um banho demorado, vestiu-se com a primeira roupa que achou no armário. A camisa estava toda amarrotada, mas pouco importava, desde que lhe cobrisse o corpo. E mal sabia porquê se vestiu, estava tão quente que apenas a cueca lhe parecia suficiente. Mas movido por alguma norma interna que obrigava-o a se vestir 'adequadamente'. Se vestiu e saiu.

Saiu sem rumo, andando. Conhecia bem a região, mas parecia diferente. Sem a antiga esperança que o movia a buscar algo, qualquer coisa que fosse. Tudo parecia cinza. Não se importava com quem ganhou alguma competição ou com um acidente trágico na Ásia ou na Europa. Para ele era a mesma coisa, nunca havia viajado mais de 600 km longe da sua casa, não tinha noção dos outros lugares do mundo.

Depois de umas 3 horas andando parou num bar, o estômago incomodava-o e lembrou-se que não comia nada há uns três dias. Pediu um café forte com pouco açúcar e um misto quente. Comeu rápido porque estava com muita fome. E repetiu três vezes. O primeiro copo de café tomou muito rápido e o último deixou-o quase cheio antes de ir embora. Estava com tanta pressa que tomou o último copo rápido demais e queimou a língua.

Pagou a conta e saiu intrigado pensando porquê sentia pressa, afinal, não tinha compromisso algum. Riu de sim mesmo e andou por mais duas horas sem rumo. Atravessou parte da cidade e estava cansado. Pegou o ônibus de volta e ficou olhando cada outro passageiro. Tentava criar sentido nas coisas que via.

Havia um idoso com uma bengala, muito debilitado, só reclamava de dor e doença. Ele nem sabia que existiam tantas doenças e muito menos que uma só pessoa pudesse ter tantas delas. Mais ao canto havia um casal novo, viviam se beijando e faziam planos para o fim de semana, para o resto do mês e do ano e até para os próximos anos que eles nem sabiam se estariam juntos ou vivos. Outro lia um livro. Outro ouvia música. Outro estava pensativo, longe dali...

Se pôs a pensar no que aquilo significava, um homem não aguentava mais a doença consumindo seu corpo, mas não tirara sua vida, adiava sua morte com remédios. E era a única coisa que fazia: ia a médicos e tomava remédios. O casal fazia planos, mas de que valem os planos? Tudo muda o tempo todo, para que perder tempo pensando no que fariam dali uma semana ou dois anos, tudo pode acontecer, tudo pode mudar, nada é eterno. Nossa vida é construída em cada ação e palavra que realizamos a cada segundo. Não é algo que possa ser previsto...

Nada do que via parecia haver qualquer tipo de sentido. Para que tudo aquilo? Onde essas pessoas iriam parar? O que será que esperavam da vida? Respostas que ele nunca soube. Voltou para casa. Tomou um garrafa de vinho, era a única bebida que tinha gelada. Fumou um cigarro demoradamente e deitou outra vez.

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